Imagine que recebe uma proposta de trabalho noutra cidade. O salário é melhor, o trabalho parece mais interessante e a oportunidade pode abrir novas portas. Ao mesmo tempo, ficará mais longe das pessoas de quem gosta, terá de deixar um ambiente familiar e começar de novo. No papel, uma opção pode parecer mais vantajosa, mas, quando chega o momento de decidir, percebe que o custo de uma decisão não se mede apenas em dinheiro.
Entre os 18 e os 25 anos, é comum ter de tomar decisões importantes sobre estudos, trabalho, habitação, relações, viagens ou independência. Não existe uma fórmula universal para descobrir qual é a escolha certa. Ainda assim, é possível perceber melhor o que tem verdadeiro valor para si e o que está disposto a dar em troca: tempo, conforto, segurança ou outras possibilidades.
Valor não é o mesmo que vantagem
Quando fazemos uma compra, podemos comparar o preço, a qualidade e a utilidade. Uma decisão de vida é mais complexa. Algumas coisas importantes não têm um preço fixo: a proximidade da família, a sensação de liberdade, um trabalho interessante, a estabilidade, o espaço para criar ou a oportunidade de aprender.
Valor pessoal é aquilo a que atribui importância na sua vida. O custo de uma decisão é aquilo a que tem de renunciar, que tem de suportar ou que precisa de adiar por causa da opção escolhida. Pode envolver dinheiro, mas também tempo, energia, incerteza, menos liberdade ou a perda de outra oportunidade.
| Pergunta | O que ajuda a avaliar | Exemplo |
|---|---|---|
| O que vou ganhar? | Os benefícios da decisão | Experiência, rendimento, independência |
| O que vou perder ou limitar? | O custo real da escolha | Tempo com pessoas próximas, conforto, poupanças |
| Porque é que isto é importante para mim? | O valor por detrás da decisão | Liberdade, segurança, relações, desenvolvimento |
| Posso mudar de rumo? | O nível de risco | Uma estadia experimental é mais reversível do que um compromisso prolongado |
As decisões mais difíceis raramente opõem o certo ao errado
Muitos dilemas não surgem porque uma das opções é claramente errada. Surgem porque duas coisas importantes para si entram em conflito. Pode querer liberdade e estabilidade, uma carreira ambiciosa e tempo para as relações, novas experiências e uma base segura.
Nessas situações, não é preciso procurar um valor que «vença». É mais útil perceber qual deles tem prioridade naquela circunstância e durante quanto tempo. Escolher a estabilidade hoje não significa que a liberdade deixou de ser importante. Significa apenas que, nesta fase, lhe atribui menos peso.
Estas são algumas das tensões que surgem frequentemente nas decisões:
- Liberdade e segurança: ter mais opções pode significar menos previsibilidade.
- Crescimento e conforto: as novas experiências implicam muitas vezes incerteza, aprendizagem e algum desconforto temporário.
- Ambição e proximidade: um objetivo exigente pode ocupar o tempo que gostaria de dedicar às relações importantes.
- Independência e apoio: fazer tudo sozinho pode reforçar a autonomia, mas também aumentar a sobrecarga.
- Espontaneidade e compromissos: manter as opções em aberto dá liberdade, mas os projetos de longo prazo exigem persistência.
Cinco passos para decidir de acordo com os seus valores
Se está a andar em círculos perante uma decisão importante, tente separar os factos, as expectativas e os valores. Este método não escolhe por si, mas pode ajudar a organizar os argumentos.
- Defina a decisão com a maior precisão possível. Em vez de perguntar «o que devo fazer da minha vida?», pergunte «aceito esta proposta de trabalho para o próximo ano?» ou «continuo neste curso por mais um semestre?».
- Registe o que cada opção oferece. Identifique benefícios concretos, não apenas ideias vagas. Há uma diferença entre «vai ser melhor» e «vou ganhar experiência, aumentar o rendimento e contactar com uma área que me interessa».
- Tenha em conta o preço a pagar. Para cada opção, considere o dinheiro, o tempo, o stress, a limitação da liberdade, a distância das pessoas próximas, a necessidade de aprender coisas novas e aquilo a que terá de renunciar.
- Identifique o valor por detrás de cada argumento. «Quero ficar perto da família» pode estar relacionado com proximidade e pertença. «Quero experimentar viver no estrangeiro» pode traduzir liberdade, crescimento ou aventura. Dar nome ao valor ajuda a distinguir uma razão importante de um estado de espírito passageiro.
- Perceba se precisa de tomar uma decisão definitiva. Por vezes, pode substituir um grande salto por um teste mais pequeno: um estágio curto, experimentar viver noutro lugar, conversar com alguém da área ou realizar um projeto concreto. Quanto mais reversível for a decisão, menos perfeito terá de ser o primeiro passo.
Exemplo prático de uma proposta de trabalho no estrangeiro
Imagine uma pessoa jovem que pode ficar no emprego atual ou passar um ano a trabalhar no estrangeiro. Um salário mais elevado não torna automaticamente a segunda opção melhor. Da mesma forma, estar perto de casa não significa que ficar seja, por definição, a escolha certa.
| Critério | Ficar | Partir durante um ano |
|---|---|---|
| Finanças | Rendimento mais baixo e menores custos associados à mudança | Rendimento mais elevado, com possíveis custos superiores de habitação e deslocação |
| Relações | Mais facilidade em manter contacto regular | É necessário planear de forma consciente o contacto à distância |
| Desenvolvimento | Continuidade num ambiente conhecido | Novas experiências profissionais e de vida |
| Segurança | Mais fatores conhecidos | Mais incerteza e necessidade de adaptação |
| Reversibilidade | A possibilidade de experimentar viver no estrangeiro mais tarde pode não se manter igual | Ao fim de um ano, o regresso poderá continuar a ser possível |
Esta comparação não serve para somar pontos de forma mecânica. Serve para mostrar onde está realmente o conflito. Se o centro do dilema for o receio de perder a proximidade das pessoas importantes, calcular novamente o salário não vai resolver o problema. Será mais útil perceber como manter o contacto durante a estadia, que possibilidades existem de regressar e se está disposto a aceitar esse custo.
Cuidado com as decisões baseadas na ideia de valor dos outros
É fácil confundir valor com prestígio. Um salário mais alto, o nome conhecido de uma instituição de ensino, a admiração dos outros ou um «bom currículo» podem ser vantagens reais. Mas não correspondem necessariamente ao que procura. Por outro lado, uma opção que parece mais modesta vista de fora pode ser mais adequada se apoiar melhor as suas prioridades.
Quando tiver de tomar uma decisão importante, tente distinguir três vozes:
- O que eu quero: o que escolheria se não tivesse de explicar a decisão a ninguém.
- O que os outros esperam de mim: família, companheiro ou companheira, amigos, escola ou ambiente profissional.
- O que acho que «se deve» fazer: ideias sobre o que uma pessoa já devia ter alcançado em determinada idade.
A influência de quem está à sua volta não é automaticamente negativa. As pessoas próximas podem identificar riscos que lhe escapam, e as necessidades delas podem ser uma parte legítima da decisão. O problema surge quando adota as expectativas dos outros como se fossem os seus próprios valores sem se aperceber.
Os valores também se revelam naquilo a que está disposto a dizer não
Quando pensamos nos nossos valores, é comum imaginarmos uma lista de palavras positivas: família, liberdade, sucesso, honestidade, tranquilidade. Mas os valores só ganham verdadeiro peso quando temos de escolher entre duas coisas boas.
Se diz que a tranquilidade é importante, mas aceita repetidamente todos os projetos extra por receio de recusar uma oportunidade, as suas escolhas apontam para outra prioridade. Se valoriza a independência, mas adia todas as decisões importantes até receber a aprovação dos outros, vale a pena explorar a diferença entre os valores que afirma ter e o seu comportamento.
Por isso, uma pergunta útil é: A que estou disposto a dizer não para proteger aquilo a que digo sim? Não tem de mudar toda a sua vida com base numa única resposta. Mas pode observar se as suas escolhas do dia a dia apoiam aquilo que considera importante.
Quando pensar mais deixa de ajudar
A reflexão pessoal tem limites. Perante algumas decisões, pode analisar repetidamente os mesmos argumentos sem obter qualquer informação nova. Nesse momento, o problema não é falta de reflexão: é que simplesmente não consegue prever o futuro por completo.
Se estiver bloqueado, pode ajudar:
- definir um prazo para decidir, para não prolongar a incerteza sem motivo;
- obter um dado concreto, como um orçamento real, as condições de um contrato ou as opções de habitação;
- fazer um pequeno teste, se for possível sem assumir um compromisso demasiado grande;
- falar com alguém que conheça a situação concreta, e não apenas com alguém que tenha uma opinião forte;
- aceitar a incerteza que resta, se já tiver informação suficiente para dar um passo razoável.
As suas prioridades podem mudar sem que isso seja falta de autenticidade
Aquilo que é importante para si aos 19 anos pode não ter o mesmo peso cinco anos depois. Novas experiências, relações, trabalho e responsabilidades podem alterar a ordem das prioridades. Não precisa, por isso, de criar uma lista fixa de valores uma vez para sempre e subordinar-lhe todas as escolhas.
É mais prático observar quais são os valores que se mantêm estáveis ao longo do tempo e quais são especialmente importantes nesta fase da vida. Alguém pode valorizar muito a liberdade a longo prazo, mas dar prioridade temporariamente à segurança durante um período de dificuldades financeiras. Outra pessoa pode gostar da estabilidade e, ainda assim, escolher conscientemente um ano de experiências intensas para ganhar novas perspetivas.
Perante uma decisão importante, experimente escrever numa coluna o que vai ganhar e, noutra, aquilo que terá de dar em troca. Por baixo de cada lista, identifique os valores que estão na origem desses pontos. O objetivo não é encontrar uma escolha perfeita, mas tomar uma decisão cujas razões conhece. Essa pode ser uma das formas mais práticas de se conhecer melhor.