Uma pessoa próxima está a passar por uma fase difícil e percebe que está a sofrer. Quer ajudar, mas não sabe se deve fazer perguntas, dar conselhos, tentar distraí-la ou simplesmente ficar em silêncio. Quanto mais importante essa pessoa é para si, maior pode ser a pressão para encontrar as palavras certas. Mas apoiar alguém não depende de dizer a frase perfeita. O mais importante é perceber do que a outra pessoa precisa naquele momento e o que não deseja receber de si.
Numa situação assim, a inteligência emocional não consiste em encontrar imediatamente uma solução. Também pode significar conseguir permanecer numa conversa difícil, ouvir sem julgar e oferecer uma ajuda adequada sem assumir o controlo da situação.
Comece por perceber se a pessoa quer falar
Quando vemos alguém em sofrimento, podemos sentir vontade de abordar o assunto de imediato. Mas nem toda a gente quer falar no momento em que percebemos que algo se passa.
Em vez de fazer várias perguntas, pode bastar uma oferta simples: «Vejo que tens muita coisa em mãos. Se quiseres falar, estou aqui.» Esta frase demonstra interesse, mas deixa a outra pessoa decidir se quer falar e quando.
Se responder de forma breve ou mudar de assunto, isso não significa necessariamente que o esteja a rejeitar. Pode precisar de tempo, de privacidade ou simplesmente não querer falar sobre o que sente.
Antes de dar um conselho, pergunte do que a pessoa precisa
A experiência de vida pode levar-nos naturalmente a apresentar uma solução logo de início. Se já passámos por algo semelhante, podemos achar que sabemos o que ajudaria. Mas talvez a outra pessoa não precise de instruções. Pode precisar de organizar os pensamentos ou simplesmente de dizer em voz alta o que está a acontecer.
Uma pergunta simples pode ajudar:
- «Queres que te oiça, sem tentar resolver nada?»
- «Queres saber a minha opinião ou preferes pensar nisto em voz alta?»
- «Há alguma coisa concreta que eu possa fazer para ajudar?»
Assim, não está a desvalorizar a sua experiência. Está apenas a partilhá-la quando ela é bem-vinda.
Distinga entre ouvir, aconselhar e ajudar na prática
O apoio pode assumir várias formas. O que é adequado numa situação pode ser inoportuno noutra.
| O que a pessoa precisa | Resposta adequada | O que é melhor evitar |
|---|---|---|
| Quer desabafar | Ouvir e perguntar sobre o que não percebeu | Interromper para dar conselhos próprios |
| Pede uma opinião | Partilhar uma perspetiva e explicar os seus limites | Apresentar uma opção como a única correta |
| Está sobrecarregada com tarefas práticas | Oferecer uma ajuda concreta e viável | Dizer apenas «se precisares de alguma coisa, avisa» |
| Não quer falar | Respeitar a distância e lembrar que está disponível | Insistir para que explique o que se passa |
Por isso, a melhor forma de apoiar alguém pode não ser a que lhe sai mais naturalmente. O que conta é a necessidade da outra pessoa, não a sua ideia de como se deve prestar ajuda.
O silêncio não significa que não está a fazer nada
O silêncio deixa algumas pessoas desconfortáveis. Quando a outra pessoa deixa de falar ou começa a chorar, podem sentir vontade de explicar, consolar ou mudar de assunto. No entanto, o silêncio pode dar-lhe espaço para encontrar as próprias palavras.
Não precisa de ter uma resposta brilhante preparada. Pode bastar dizer «isso parece mesmo difícil» ou «percebo que isso te tenha afetado». Não está a afirmar que sabe como resolver tudo; está apenas a mostrar que reconhece a gravidade da situação.
Se não souber o que dizer, pode admiti-lo: «Não sei bem o que dizer, mas fico contente por me teres contado.» A sinceridade pode ser mais útil do que uma frase feita que minimiza o problema.
Não tente tranquilizar antes de compreender o que a pessoa sente
Expressões como «vai correr tudo bem», «não penses nisso» ou «há quem esteja pior» costumam nascer de uma boa intenção. Mas podem deixar de lado o essencial: a pessoa ainda nem teve oportunidade de explicar o que está a viver.
Antes de a tentar tranquilizar, procure compreender a situação. Faça perguntas breves e concretas:
- «O que é mais difícil para ti nisto?»
- «O que te tem ocupado mais os pensamentos?»
- «O que mais te preocupa nesta situação?»
Estas perguntas ajudam a iniciar a conversa sem impor a sua própria interpretação.
Partilhe a sua experiência como possibilidade, não como prova
Se passou por algo semelhante, a sua história pode ajudar a outra pessoa a sentir que não está sozinha. Mas uma situação parecida não é necessariamente igual.
Em vez de dizer «sei exatamente o que sentes», é mais rigoroso dizer: «Passei por algo parecido, mas sei que a tua situação pode ser diferente.» Depois, pode perguntar se gostaria de ouvir o que o ajudou a si.
Assim, partilha a sua experiência sem transformar a conversa numa história sobre si. Também reconhece que o mesmo conselho pode não resultar num contexto de vida diferente.
A ajuda prática funciona melhor quando é concreta
Quando alguém atravessa uma fase difícil, até as pequenas decisões podem ser cansativas. A oferta genérica «se precisares de alguma coisa, liga-me» pode ser sincera, mas obriga a pessoa a imaginar o que poderia pedir e a tomar a iniciativa de o fazer.
Uma oferta concreta pode ser mais útil:
- «Posso levar-te algumas compras amanhã?»
- «Queres que te acompanhe à consulta?»
- «Posso tratar desta tarefa para não teres de a resolver hoje?»
- «Queres que te ligue daqui a uns dias ou preferes ficar descansado?»
É importante aceitar também uma recusa. A pessoa não é obrigada a aceitar uma oferta de ajuda.
Um exemplo de conversa quando alguém não sabe o que fazer
Imagine que uma pessoa próxima lhe diz que, depois de um acontecimento difícil, não sabe como seguir em frente. Tem muitas ideias sobre o que ela poderia fazer, mas não sabe se quer ouvir conselhos.
A conversa poderia decorrer assim:
- Reconheça a situação: «Parece que tens muita coisa em cima neste momento.»
- Perceba do que precisa: «Queres falar sobre isso ou preferes ficar um pouco em silêncio?»
- Se quiser falar, ouça: não transforme cada frase numa oportunidade para aconselhar.
- Antes de dar uma opinião, pergunte: «Queres saber o que eu ponderaria nesta situação?»
- Apresente opções, não ordens: partilhe o que vê e deixe a decisão nas mãos da outra pessoa.
- Combine um próximo contacto: «Queres que te ligue no fim de semana?»
Este método não tem nada de grandioso. A vantagem é respeitar a pessoa e o ritmo de que precisa.
Quando custa que rejeitem o seu conselho
Se dedicou tempo a alguém, partilhou a sua experiência e a pessoa fez precisamente o contrário do que sugeriu, isso pode magoar. Talvez sinta que não o ouviu ou que não valoriza o que viveu.
Pode ajudar lembrar-se de que um conselho não é um acordo para obedecer. A outra pessoa pode compreender a sua opinião e, ainda assim, decidir de outra forma. A escolha dela não retira valor à sua experiência.
Se quiser preservar a relação, em vez de dizer «eu bem te avisei», pode perguntar como vê agora a situação e o que aprendeu com ela. Assim, continua a ser alguém que participa na conversa, em vez de julgar as escolhas da outra pessoa.
O apoio também tem limites
Apoiar alguém não significa estar sempre disponível nem carregar o problema por essa pessoa. Se as conversas prolongadas o esgotam, pode estabelecer um limite sem a rejeitar.
Por exemplo: «Quero ouvir-te, mas hoje já não tenho muita energia. Podemos retomar a conversa amanhã?» Este limite é concreto e não julga a outra pessoa.
Também é importante reconhecer quando a situação ultrapassa o apoio habitual de familiares ou amigos. Perante sofrimento psicológico grave ou prolongado, risco para a segurança ou uma situação que não consegue gerir, pode ser necessária ajuda profissional. O seu papel não tem de ser resolver o problema, mas ajudar a pessoa a encontrar o apoio adequado.
Repare também na sua própria reação
É difícil ouvir algumas emoções de outras pessoas. A tristeza pode despertar impotência, a raiva pode levar a uma reação defensiva e a incerteza pode criar vontade de encontrar uma solução imediatamente. Por isso, a sua primeira reação pode não corresponder à necessidade da outra pessoa. Pode ser uma tentativa de aliviar o seu próprio desconforto.
Antes de responder, pergunte a si mesmo: «Estou a ajudar esta pessoa ou a tentar livrar-me rapidamente do meu próprio mal-estar?»
Esta breve pausa pode ajudá-lo a abrandar e a escolher uma resposta mais adequada à situação.
Um método simples para quando não sabe o que dizer
Da próxima vez que estiver ao lado de alguém que atravessa uma fase difícil, não precisa de procurar a frase perfeita. Basta seguir alguns passos:
- Repare no que se passa sem tirar conclusões precipitadas.
- Ofereça a sua presença e deixe a pessoa decidir se quer falar.
- Comece por ouvir e só depois pergunte se quer um conselho.
- Se der uma opinião, fale a partir da sua experiência e deixe a decisão com a outra pessoa.
- Se puder ajudar na prática, ofereça algo concreto.
- Respeite a recusa, o silêncio e uma decisão diferente da sua.
- Tenha em conta os seus próprios limites e, perante uma situação grave, não se fique apenas pelo apoio informal.
Apoiar alguém não significa ter resposta para tudo. Muitas vezes, basta que a outra pessoa sinta que não tem de provar a gravidade do que está a viver e que pode falar, ficar em silêncio e decidir ao seu próprio ritmo, sem ter de passar por tudo completamente só.