Quando falar no trabalho mesmo sem lhe perguntarem

Quando falar no trabalho mesmo sem lhe perguntarem

Uma decisão está a ser tomada numa reunião e sabe algo que pode influenciar significativamente o resultado. No entanto, ninguém lhe pede diretamente a opinião. A informação não faz totalmente parte das suas responsabilidades, não quer parecer que se está a intrometer no trabalho de outra pessoa e, ao mesmo tempo, suspeita que o silêncio pode ter consequências. Nessas circunstâncias, não fazer nada também é uma decisão.

Nem toda a informação exige uma intervenção imediata. A forma responsável de agir depende de quão seguros são os factos, da gravidade das possíveis consequências, do papel que desempenha na situação e da existência de uma forma adequada de abordar o assunto. O objetivo não é interferir em tudo, mas reconhecer quando o silêncio deixa de ser neutro.

Comece por perceber se tem um facto ou apenas uma suspeita

Antes de chamar a atenção para um problema, identifique exatamente o que sabe. Ter um documento, um dado ou experiência direta é diferente de se basear em informação incompleta ou numa impressão.

Estas quatro perguntas podem ajudar:

  • O que observei ou confirmei diretamente? Que parte da situação consigo descrever sem recorrer a suposições?
  • O que estou apenas a interpretar? Estou a atribuir a alguém uma intenção que desconheço?
  • Que informação me falta? Há algum dado que possa alterar a forma como vejo a situação?
  • Até que ponto é fácil confirmar? Posso começar por fazer uma pergunta ou consultar os elementos disponíveis?

Se não tiver a certeza, não precisa de começar por fazer uma acusação. Muitas vezes, basta perguntar: «Tenho uma informação que pode ser relevante para esta decisão. Posso acrescentá-la?»

Distinção essencial: Dar a conhecer uma informação verificável não é o mesmo que apresentar publicamente uma suspeita como se fosse uma conclusão definitiva.

A gravidade das consequências determina o grau de cautela necessário

Nem todos os erros têm o mesmo peso. Se se tratar de uma pequena imprecisão sem grande impacto, pode ser adequado resolvê-la informalmente. Mas, se uma decisão puder prejudicar uma pessoa, uma equipa, um cliente ou a empresa, há mais razões para não ignorar a informação.

Situação Primeiro passo adequado Quando reforçar a resposta
Pequeno mal-entendido Confirmar diretamente os factos com a pessoa envolvida Se o problema se repetir ou tiver um impacto maior
Decisão injusta Chamar a atenção para os factos em falta ou para as consequências Se forem ignoradas informações relevantes e daí resultar prejuízo
Suspeita de uma irregularidade grave Preservar os factos e recorrer ao procedimento interno adequado Se a situação exigir uma resposta formal de acordo com as regras da organização
Risco iminente para pessoas ou para a empresa Encaminhar sem demora a situação para alguém com competência para agir Se o canal habitual não responder ou não for adequado

Por isso, a decisão não depende apenas de saber se tem razão. Também importa perceber o que poderá acontecer se não fizer nada.

O seu papel importa, mas não tem de justificar o silêncio

No trabalho, as responsabilidades estão distribuídas. É sensato respeitar quem responde por cada área. Ainda assim, dizer «não é da minha responsabilidade» pode não ser suficiente quando se tem conhecimento de algo que pode alterar significativamente uma decisão.

É útil distinguir três situações:

  • Não é uma tarefa minha, mas tenho um facto relevante: pode transmitir a informação à pessoa que toma a decisão.
  • Faz parte das minhas responsabilidades profissionais: não basta esperar que outra pessoa repare no problema.
  • Não tenho informação suficiente nem autoridade para agir: pode ser melhor começar por pedir aconselhamento a alguém que conheça a situação.

Assumir responsabilidade não significa ocupar o lugar de outra pessoa. Pode significar apenas fazer chegar, a tempo, uma informação importante a quem deve recebê-la.

Escolha a intervenção mínima que ainda possa resultar

Se a situação não representar um perigo imediato nem for particularmente grave, não precisa de começar pela escalada mais elevada. Muitas vezes, é adequado passar de uma intervenção discreta para uma resposta mais formal, se necessário.

  1. Confirme as circunstâncias: verifique se lhe falta algum contexto importante.
  2. Aborde o assunto diretamente: se for seguro e adequado, fale com a pessoa envolvida.
  3. Explique o impacto no trabalho: indique por que razão a informação pode alterar a decisão.
  4. Envolva alguém com competência para agir: se o problema não puder ser resolvido ao seu nível.
  5. Recorra ao procedimento formal: se o problema for grave ou se as regras internas o exigirem expressamente.

Esta sequência não se aplica a todas as situações. Perante uma suspeita grave de violação de regras, de segurança ou da lei, uma confrontação direta pode não ser adequada; nesse caso, é mais sensato recorrer ao canal interno previsto.

Regra de decisão: Comece pela intervenção adequada menos intrusiva, mas não escolha uma resposta tão limitada que não possa proteger as pessoas ou a decisão de consequências graves.

Explique com clareza o que sabe e o que desconhece

Quando o assunto é delicado, ajuda usar uma linguagem que separe os factos das avaliações. Em vez de dizer «isto é pouco ético», pode ser mais preciso dizer: «Nos documentos, vejo uma diferença entre este valor e o que está a ser apresentado. Não sei se se trata de um erro ou de outra circunstância, mas penso que devemos confirmar antes de tomar a decisão.»

Esta forma de apresentar o assunto faz três coisas ao mesmo tempo: transmite a informação, não finge uma certeza que não tem e explica por que razão o tema é relevante.

Perante uma decisão injusta, também pode ser útil dizer: «Tenho uma informação que, na minha opinião, altera a forma como a situação deve ser entendida. Gostaria de a acrescentar antes da decisão final.»

Exemplo prático de um colega acusado injustamente

Imagine que a equipa atribui um erro a um colega, mas sabe que a decisão determinante foi tomada por outra pessoa. Não conhece todos os detalhes, mas tem uma mensagem concreta que mostra quem aprovou a alteração.

Há várias formas de reagir:

  • Ficar em silêncio: evita uma situação desconfortável, mas a decisão pode continuar a basear-se numa suposição errada.
  • Acusar publicamente outra pessoa: traz o problema à tona, mas pode ir além do que realmente sabe.
  • Acrescentar um facto concreto: informa que existe uma mensagem com um registo diferente dos acontecimentos e sugere que seja verificada.

A terceira opção é muitas vezes a mais rigorosa. Não tenta decidir pelos outros quem é culpado. Procura garantir que a decisão tenha em conta a informação de que dispõe.

Perante a pressão de um superior, distinga lealdade de cumplicidade

A situação torna-se mais delicada quando o problema envolve alguém com autoridade sobre si. Por exemplo, essa pessoa pode pedir-lhe que ignore uma irregularidade, omita informação ou apresente a situação de uma forma que lhe pareça enganadora.

Nesses casos, pode ser tentador encarar a obediência como parte da lealdade à equipa. Mas vale a pena perguntar-se se lhe estão a pedir ajuda para resolver o problema ou para o encobrir.

Se não tiver a certeza, pode começar por pedir esclarecimentos: «Quero confirmar exatamente o que espera de mim e de que forma isso está de acordo com as nossas regras.» Perante uma suspeita mais grave, é preferível consultar os procedimentos da organização em vez de se guiar apenas pela impressão pessoal.

Se a situação envolver contabilidade, segurança, obrigações legais ou outra área regulada, uma orientação geral não é suficiente. O que conta são as regras, as responsabilidades e os procedimentos formais de comunicação aplicáveis ao caso.

Uma decisão vantajosa também pode ser injusta

Alguns dilemas profissionais surgem porque uma opção traz uma vantagem clara para a empresa, mas transfere os custos para uma pessoa ou para um grupo pequeno. O benefício para a organização, por si só, não determina se a decisão é adequada.

Perante uma decisão deste tipo, pode ser útil perguntar:

  • Quem beneficia e quem suporta os custos?
  • Que critérios estão a ser usados para decidir?
  • Usaríamos os mesmos critérios se estivesse em causa outra pessoa?
  • A pessoa afetada consegue perceber em que se baseou a decisão?
  • Há uma alternativa menos prejudicial para alcançar o mesmo objetivo?

Estas perguntas não garantem que todos fiquem satisfeitos com o resultado. Ajudam, porém, a perceber se a vantagem para a organização está a ocultar uma distribuição desproporcionada das consequências.

Se decidir falar, escolha o canal adequado

O conteúdo do alerta é apenas metade da decisão. A outra metade é a forma de o transmitir. Uma confrontação pública pode ser necessária em alguns casos, mas muitas vezes aumenta a atitude defensiva e dificulta uma análise objetiva.

As opções variam consoante a gravidade:

  • Conversa em privado: adequada quando há falta de clareza ou quando o problema pode ser corrigido diretamente.
  • Alerta a um superior: adequado quando a decisão ultrapassa as suas responsabilidades.
  • Canal interno formal: adequado perante irregularidades graves ou quando as regras assim o determinam.
  • Consulta independente: pode ser útil se não souber avaliar o seu papel ou os riscos dos passos seguintes.

Ao escolher o canal, pondere também se uma confrontação direta pode levar à destruição de provas, a retaliações ou a um agravamento da situação. Em casos graves, é sensato seguir as regras internas ou profissionais aplicáveis.

Não assuma a obrigação de resolver todas as situações

A responsabilidade também tem limites. Não tem de vigiar todos os colegas, corrigir cada decisão nem tornar-se o fiscal informal da ética da equipa.

Se não tiver informação relevante, se o problema for pequeno e se estiver a ser tratado por quem tem essa competência, pode ser perfeitamente adequado não intervir. Também não é necessário transformar qualquer divergência de valores num problema ético.

É útil concentrar-se nas situações em que se conjugam três elementos: tem uma informação relevante, as consequências podem ser significativas e existe uma forma adequada de a fazer chegar a quem decide.

Limite importante: Ser responsável não significa interferir em tudo. Significa reconhecer as situações em que dispõe de informação importante e em que o silêncio pode aumentar o risco de uma decisão injusta ou errada.

Faça seis perguntas antes de decidir ficar em silêncio

Se não tiver a certeza de que deve abordar o assunto, percorra este breve quadro de decisão:

  1. O que sei exatamente? Separe os factos confirmados da interpretação.
  2. Quão graves podem ser as consequências? Para uma pessoa, uma equipa, a empresa ou decisões futuras.
  3. A informação é relevante para quem toma a decisão?
  4. Tenho o dever de agir ou apenas a possibilidade de alertar?
  5. Qual é o canal mais adequado? Uma conversa direta, um superior ou um procedimento formal.
  6. O que poderá acontecer, provavelmente, se eu não disser nada?

A última pergunta é muitas vezes decisiva. O silêncio pode ser razoável se tiver apenas uma suspeita pouco fundamentada e não houver consequências relevantes. Mas, se dispõe de informação que pode evitar um erro grave ou uma injustiça, a inação deixa de ser simplesmente a ausência de uma decisão e passa a ser uma opção pela qual também assume uma parte da responsabilidade.

Como se manifesta este tema na sua vida? Escolha as respostas que melhor o descrevem:

Você se encontrou em uma situação em que viu um colega tomar uma decisão que era vantajosa para a empresa, mas injusta para o indivíduo. Como você reagiu?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Você tem a opção de decidir sobre a alocação de recursos na equipe. Você sabe que alguns colegas são mais produtivos, mas outros têm problemas pessoais. Como você procede?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Recebeste uma oferta para um projeto lucrativo, mas envolve pequenas flexibilizações das regras. Como decides?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Você está em uma situação em que seu superior pede que você encubra certas discrepâncias na contabilidade. Como você reage?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Você tem a oportunidade de apoiar um colega para uma promoção. No entanto, é mais vantajoso apoiar outra pessoa. Como você decide?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Você tem uma informação que pode impactar seriamente uma importante decisão empresarial, mas ninguém te pergunta. Como você procede?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Você se encontrou em uma situação em que precisa tomar uma decisão que afetará a vida de várias pessoas. Como você procede?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Um colega mais jovem veio até você com um dilema moral. Como você reage?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Recebeste uma oferta de trabalho com um salário mais alto, mas em uma empresa com menos orientação ética. Como você reage?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

Você é testemunha de uma situação em que alguém é injustamente punido por um erro que não cometeu. O que você fará?

Escolha a resposta que melhor o descreve.

41 – 60 anos: Responsabilidade e tomada de decisões éticas

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